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Brasil tem perdas substanciais com a crise aérea

Professor Elton Fernandes – Programa de Engenharia de Produção da COPPE/UFRJ

O Brasil vem passando por uma crise profunda no setor de Transporte Aéreo. A busca de culpados tem levado a sucessivas mudanças de dirigentes de organizações públicas que atuam no setor. Estas mudanças não vêm produzindo as melhorias esperadas pela sociedade e provavelmente não irão gerar melhores resultados sem mudanças fundamentais no sistema como um todo. O Brasil além de perder substancial abrangência do transporte aéreo no interior (redução de número de aeroportos servidos por linhas aéreas regulares), teve sérios problemas nas operações da aviação civil regular. Congestionamentos e atrasos nos aeroportos se tornaram freqüentes, principalmente nas áreas de São Paulo, Brasília e Manaus com reflexos em todo o País. É difícil se estabelecer uma cifra, mas certamente o custo para a sociedade brasileira chega a vários bilhões de Reais, isto se considerando os impactos de atrasos, congestionamentos, perda de mercado, perda de negócios etc. Recente notícia de jornal (30 de setembro de 2007 – O Estado de São Paulo) relata uma perde de R$ 3 bilhões nos últimos 12 meses.

Por exemplo, a participação das empresas nacionais de transporte aéreo regular no mercado de transporte aéreo de passageiros internacional regular caiu de, aproximadamente, 50% do mercado para 30%, tendo havido nesta área uma queda substancial de oferta por parte das em presas nacionais. Para se ter uma idéia mais clara, a figura abaixo mostra a evolução do assento quilômetro no transporte internacional regular de passageiros das empresas nacionais.

Gráfico

Fonte de dados: ANAC

Nesta figura se apresentam os dados de oferta (ASSkm oferecido), os dados de demanda (ASSkm Pago) e uma previsão da manutenção da tendência a partir de julho de 2005. O espaço entre a previsão e o ASSkm Pago, representa a transferência do mercado das empresas brasileiras para as estrangeiras. A estimativa de perda de receita das empresas brasileiras com o tráfego aéreo internacional regular de passageiros de agosto de 2005 a julho de 2007 é de R$ 2.811.576.680,00. Esta estimativa equivale a um total de 13.854.579.000 assento quilômetro não faturado pelas empresas nacionais, mas sim pelas empresas estrangeiras, considerando-se uma receita por assento quilômetro de R$ 0,2029. No ano de 2006 as empresas brasileiras tiveram um faturamento total de passagens internacionais de R$ 3.609.936.524,84. Pelo gráfico mostrado na figura anterior a transferência para as empresas estrangeiras foi de 7.894.848 milhares de assento quilômetro pago. O que leva a uma perda de receita de R$ 1.602.139.670,00. Isto significa uma relação de 44%. Nestes cálculos estamos considerando apenas as perdas relativas à receita de passagens, mas, com certeza, o valor inerente à carga também é bastante significativo. Outros fatores importantes são: a perda de capacidade e a fuga de recursos humanos especializados para outros mercados, como é o caso dos pilotos que se deslocaram para atuar na Ásia.

O transporte aéreo doméstico também tem mostrado indicadores preocupantes. O mau desempenho dos serviços das empresas, dos aeroportos e do controle de tráfego tem levado a sugestões que não estão balizadas por conhecimento, mas tão somente por sentimentos reativos à má qualidade dos serviços de transporte aéreo prestados à sociedade. A discussão dos “Céus Abertos” ou a privatização dos aeroportos e mesmo a privatização do serviço de controle de tráfego aéreo, não se baseiam em estudos, mas em especulações e comparações pouco razoáveis. O fato da degradação dos serviços é evidente e bem percebido pela sociedade, razão pela qual a solução deve ser bem estudada para não sacrificar ainda mais a sociedade. Observa-se que de 2001 para 2006 o assento quilômetro pago das empresas brasileiras cresceu 51% enquanto a oferta cresceu apenas 23%. De outra forma o movimento de passageiros embarcados mais desembarcados nos aeroportos da INFRAERO cresceu 38% e o movimento de pousos e decolagens reduziu em 10% (Fonte de dados ANAC e INFRAERO). Estas estatísticas só se encaixam porque observamos um número menor de freqüência de vôos com aeronaves maiores e aumento do número de passageiros por vôo, isto é, maior lotação percentual das aeronaves (relação entre assento pago e assento oferecido). Enquanto a sociedade e a segurança nacional demandam mais capilaridade da aviação civil no Brasil, estamos observando os maus efeitos do monopólio e uma efetiva concentração de investimentos da aviação regular nos locais de maior densidade, com abandono da assistência ao interior. Será que esta é uma boa opção para o desenvolvimento do Brasil? A falta de estudos e conseqüentemente de conhecimento do setor e dos impactos das medidas relacionadas à evolução deste setor dificulta em muito sua gestão e tornam as ações especulativas e de alta incerteza. A geração de conhecimento é a única alternativa para se melhorar o processo de tomada de decisão no setor. Disto resulta a iniciativa de desenvolver estudos e pesquisas, convidando as partes interessadas no setor de transporte aéreo, no desenvolvimento do Brasil e discutir resultados com a sociedade.

 

 

 

INFRAPREV PET/COPPE/UFRJ SBTA TGL/COPPE/UFRJ INFRAPREV SNEA CTCEA ANAC INFRAERO DECEA

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